Educação
inclusiva e formação docente
No
processo de implantação da política de educação inclusiva no Brasil são muitos
os desafios encontrados, mas a falta de preparo dos professores e professoras
ganha destaque quando o tema é abordado. O reconhecimento de dificuldades na
formação docente para a educação inclusiva deve ser não uma justificativa para
os fracassos, mas um motor para a construção de experiências bem-sucedidas onde
a educação é de qualidade e verdadeiramente para todos.
A partir
da aceitação da matrícula de pessoas que apresentam necessidades educacionais
especiais (decorrentes de deficiências e transtornos globais do
desenvolvimento) nas redes de ensino, depara-se com a realidade de muitos
docentes que se sentem confusos, despreparados e incapazes para acolher esses
alunos e, sobretudo, para trabalhar com propostas didático-pedagógicas que
atendam às necessidades, expectativas e demandas próprias de cada um desses
sujeitos da educação.
Pressupõe-se,
para o sucesso da escola inclusiva, a exigência de mudanças radicais nas suas
estruturas físicas, materiais e de pessoal, em seu projeto pedagógico e gestão
administrativa (MANTOAN, 2001). Assim, é possível perceber que o paradigma da
inclusão pressupõe uma escola democrática, com respeito ao tempo do aluno, com
a aprendizagem como centro e o estímulo ao trabalho coletivo,
participativo.
No
entanto, que tipo de formação atenderia ao apelo dos professores que se sentem
despreparados e desamparados no atendimento dos alunos com necessidades
especiais? Quais os saberes necessários para educar a todos? Quais as
diretrizes para a formação inicial e a formação continuada na perspectiva da
educação inclusiva?
Na Lei de
Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, no Artigo 59, inciso III, ao definir o que os
sistemas de ensino devem assegurar aos alunos com necessidades especiais, é
apontada uma diretriz para a formação dos professores: “professores com
especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento
especializado, bem como professores do ensino regular, capacitados para a
integração desses educandos nas classes comuns” (BRASIL, 1996).
Aparece
uma diferenciação entre professores com especialização para os atendimentos
especializados e professores capacitados para atuarem nas classes comuns das
escolas regulares. Acompanhando o que está posto na LDB, o documento
“Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica”, de 2001
(BRASIL, 2001), traz uma definição mais detalhada dos termos professores capacitados e professores especializados e as
competências de cada um.
Os
professores capacitados, para serem assim
denominados, devem ter uma disciplina na sua formação inicial a respeito da
educação especial e educação inclusiva, e adquirir competências para perceber
as necessidades educacionais especiais dos alunos e flexibilizar a ação
pedagógica para atender as suas necessidades. Mas estas não são tarefas
simples.
Uma
disciplina nos cursos de formação de professores que aborde as questões
relativas à educação especial e educação inclusiva, não dá conta da
complexidade e da abrangência dos temas. Neste caso podemos falar de informação, mas não de formação.
A
formação dos professores especializados,
os que vão trabalhar nos atendimentos educacionais especializados e atender
diretamente as especificidades dos alunos com deficiências, transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação deve acontecer em cursos
específicos. Estes profissionais também devem apoiar aos professores das
escolas regulares que tiverem alunos com necessidades educacionais especiais em
suas salas de aula.
E quanto
à formação continuada dos profissionais que estão recebendo, em suas salas de
aula, os alunos com necessidades educacionais especiais? Quais os caminhos, as
possibilidades de uma formação que ajude a dar conta da realidade atual?
A
parceria entre universidades e escolas públicas e privadas seria um bom começo.
Não no sentido da universidade trazer um conhecimento, mantendo o costume de
verticalizar ações junto aos docentes em formação, mas na vertente de trabalhar
junto com as instituições escolares possibilidades de construir um saber a
respeito do processo de implementação da política de educação inclusiva nas
escolas. Como as escolas podem receber, acolher, conhecer e planejar o
atendimento das necessidades educacionais especiais dos alunos? Mas esta é por
excelência uma ação coletiva. Cada seguimento da escola precisa reconhecer seu
papel na efetivação da inclusão e pensar em ações que possam facilitar o
processo de inclusão. Após a matrícula o que pode ser feito para receber o
aluno, conhecê-lo e traçar caminhos para sua adaptação e inserção real na
dinâmica da escola.
O
conhecimento a respeito dos tipos de deficiências, transtornos globais do
desenvolvimento e altas habilidades/superdotação com a conceituação,
características e possibilidades de trabalho pedagógico, pode ser de grande
valia para os profissionais da educação, mas é necessário que se considere
sempre a dimensão do sujeito que apresenta essas diferenças. Assim, a discussão
de casos, a socialização de experiências bem-sucedidas no coletivo da escola,
também pode ser uma ferramenta de grande ajuda para toda a comunidade
escolar.
Para
finalizar, é preciso reconhecer que o Brasil tem uma base de sustentação legal
que deveria contribuir para que as mudanças educacionais acontecessem num processo
crescente de introdução de novos conhecimentos e novas práticas. Mas algumas
questões dificultam a realização do sonho da inclusão:
1. Nas universidades, a temática da educação das pessoas com
necessidades especiais ainda não é incorporada como uma discussão geral. A
formação inicial se resume a uma disciplina que não consegue atender à
complexidade do tema e a formação continuada precisa ser discutida e aliada a
ações de pesquisas e extensão.
2. Os alunos com necessidades especiais não são considerados,
nas escolas, como alunos e sim como problemas que chegam. O foco no déficit, na
falta, na impossibilidade precisa ser vencido, desconstruído, para que essas
pessoas assumam seus lugares de alunos, de sujeitos capazes de aprender.
3. O poder público, no âmbito federal, estadual e municipal
precisa vencer a etapa das intenções e passar às ações. Investimentos nas
mudanças físicas das escolas, aquisição de materiais, contratação de
professores especializados e formação dos professores em serviço necessitam
acontecer em caráter de urgência.
Estas são
apenas algumas situações que precisam de atenção para que a educação inclusiva
não seja uma proposta irreal e sem possibilidades de se concretizar. O que
vemos é uma política pública com um discurso muito diferente da prática. Essa
situação de divergências e conflitos pode levar ao malogro de uma proposta
democrática e justa, a ideia de uma escola que não exclui, que aceita, atende e
respeita a todos.
Mudanças
no campo da formação docente para a educação inclusiva podem contribuir de
maneira significativa para que as mudanças nas escolas aconteçam de fato e que
experiências bem-sucedidas não sejam mais exceções no nosso cenário educacional
e sim a norma de uma educação democrática.
Por: Sonia
Maria Rodrigues

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